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DEBATE COM CARVALHO DA SILVA n’O CLUBE DOS PENSADORES

Caro Joaquim Jorge, Caro Sr. Carvalho da Silva, Caros Participantes na vida do Clube dos Pensadores,
Tratando-se hoje de discernir sobre aquele que tem sido o tema de fundo da minha carreira profissional, as Relações de Trabalho, não pude deixar de decidir trazer, pelo menos a este público, a minha forma de ver a questão, para mais num momento como o actual, para além de deixar uma pergunta ao convidado, cuja resposta, pública ou privada, muito agradeço, desde já.

1. Os Meus Pressupostos:

Nascido em 1956, tinha 17 anos (adolescência, irreverência, pôr tudo em causa) quando se deu o 25 de Abril. Licenciado em Filosofia, em 1980, tenho trabalhado, desde 1983, na Direcção de Recursos Humanos de Empresas. Tenho que confessar, desde já, que não gosto desta designação: a minha empresa pessoal, adopta a designação ‘Desenvolvimento de Pessoas e Empresas’, porque, aquela outra designação tem por base a ideia, que considero errada, de que as Pessoas são, para as empresas, um recurso, como qualquer ferramenta descartável.

A primeira empresa em que colaborei, nacional, empregava mais de 1000 trabalhadores, que, ao longo dos anos, pela introdução de um clima de participação e confiança, se foram transformando em colaboradores, promoveu em mim a noção clara de que TODOS, nas empresas, são, de facto, donos da empresa – só é preciso dar-lhes as ferramentas certas para se envolverem positivamente com as coisas do dia-a-dia, para obtermos enormes ganhos de produtividade, de intervenção positiva no desenvolvimento da empresa, que culminam na enorme satisfação pessoal, todos os dias da semana, a qualquer hora do dia, porque, uma vez sentindo-se patrões de si próprios, são-no em todas as vertentes da sua vida: no trabalho, em família, na comunidade em que vivem, nos seus hobbies. E não carecem da intervenção de nenhuma instituição de defesa que lhes seja exterior, como o são os sindicatos.

Aquilo que ali fizemos, porque fomos todos a fazê-lo, aconteceu porque ninguém estava CONTRA nada: estávamos, isso sim, empenhados a favor da Empresa enquanto empreendimento participado por todos.
O patrão, porque era, de facto, uma empresa de patrão, tinha apenas a 3ª classe, e, na sua juventude, tinha trabalhado no campo, de onde saía para distribuir jornais, no fim do que ia apanhar o comboio para o Porto para trabalhar como encadernador por conta de outrem. Um dia, percebeu que o gestor da vida dele era ele mesmo, e, por acidente, criou uma Empresa, primeiro só com um ajudante, 10 anos depois já com 50 empregados, 20 anos depois com 150, e, a partir dos finais dos anos 60, com cerca de 1000. A empresa ainda vive, hoje dirigida (e tenho o cuidado de não dizer liderada) por uma filha daquele patrão.

O que tudo isto serve para ilustrar é a minha convicção de que, na sua maioria, os patrões de hoje, foram empregados ontem, ou trabalhadores, ou colaboradores a quem não ouviam.

Na segunda empresa, uma multinacional americana, que actua em quatro grandes áreas de negócio, e que iniciava os seus investimentos em Portugal, em Nelas, com uma empresa de componentes para o sector automóvel, constatei rigorosamente o mesmo que na primeira quanto à facilidade de transformar os trabalhadores em donos de si próprios, ou seja, em colaboradores, não havendo, aqui, a figura de um patrão que sugerisse aquela postura, pela sua história pessoal.

Em Maio de 1993, esta empresa recebeu, a partir da sua sede europeia, uma sentença de morte: ou se produzia, em 1 dia útil, uma quantidade ‘impossível’ de peças, ou a fábrica fechava: nenhum dos colaboradores aceitou tal sentença, mas, ao contrário de o demonstrar fazendo greve, empenharam-se na tentativa de atingir o impossível, trabalhando durante 3 noites, o tal dia útil, um sábado e a manhã de um domingo e conseguiram realizá-lo. No ano passado, tornaram a dar-me a certeza de que as noções que ajudei a criar ficaram com eles. A empresa decidiu encerrar a exploração em Portugal e, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, numa outra multinacional do sector na Azambuja, decidiram não fazer greve, mas, antes, demonstrar a sua própria dignidade, trabalhando até ao fim. Resultado? Viram aumentado o valor das suas indemnizações, e chamaram a atenção de outra multinacional, pela sua atitude, conseguindo novos empregos e minimizar o efeito do encerramento da unidade que, demonstraram-no, foi um sucesso devido a eles.

A terceira empresa, também criada de raiz, nasceu de um projecto pessoal, meu, e, apesar de a minha sociedade com capitalistas não ter corrido como eu esperava (desta vez, eram capitalistas, não empreendedores), sinto que aquilo que passei aos meus colaboradores mantém a empresa como líder do seu sector, viva e fiel aos princípios ‘o que falha são as pessoas, não as empresas’, e ‘o meu mundo depende da minha intervenção, que tem que ser positiva’.

Desde aí, tenho colaborado, fundamentalmente, como consultor de organização e desenvolvimento de pessoas e empresas, e, posso dizê-lo, todas as empresas por que passei adoptaram atitudes de envolvimento que inibiu criação de momentos de fricção, de luta, inibindo, assim, a presença de sindicatos, por desnecessários.

2. A Minha Leitura, do mundo das Relações de Trabalho

De uma análise do que foi a minha vida nas empresas, não pode resultar outra coisa senão:

• A constatação de que as pessoas, em Portugal, gostam de trabalhar, sempre que isso signifique participar no desenvolvimento das empresas, sejam ouvidas nas questões práticas, se sintam gente.

• As pessoas só se preocupam com ‘garantias dos trabalhadores’ quando, por falta de comunicação interna de objectivos e da visão da empresa, não estão envolvidos com o projecto a que vendem, ou alugam, as suas horas de trabalho, mas não a sua vontade de fazer parte.

• Da mesma forma que se comportam os ‘Patrões’, têm-se comportado os sindicatos: ignorando o que o outro quer, de facto, mas não soube comunicar, criam movimentos CONTRA… Contra seja o que for, desde que a sua voz se ouça, por parte daqueles que dizem defender. E o que é que isto provoca? Luta! O que significa que, no fim desta, uma parte vai GANHAR, e a outra vai PERDER. Perguntaria: pode um País ganhar, quando, no seu seio, uma parte dos agentes económicos ganha e outra, seguramente significativa em número e importância, perde? Respondo eu, como responderá seja quem for de bom senso: Não! E repare-se que, quando se cria uma empresa, se diz e se sente que se está a formar uma equipa: numa equipa todos ganham ou todos perdem, ou, então não houve equipa.

• Acredito, 25 anos depois de ter começado, que é possível fazer com que as empresas sejam equipas, não importa por quantas pessoas e de que extractos sociais se formem, e os exemplos que vivi comprovam-no.

• Da mesma forma olho para o País: Não encontro um único Inteiro ‘Por Portugal’. Encontro Partidos, que defendem ideias importadas, algumas com mais de um século, que criaram instrumentos com uma função específica, muitas vezes louvável à partida, como seja o de ajudar a tratar a Regulamentação do Trabalho, mas que acabam como factores criadores de lutas, ao defenderem obstinadamente a filosofia política que lhes deu berço, em vez de perceberem a necessidade de entender os vários pontos de vista que qualquer discussão suscita e procurar pontos de consenso que sejam provocadores de desenvolvimento e já não da manutenção de seja o que for.

• O resultado disto que exponho, de não haver uma consciência ‘Por Portugal’, é aquele que encontramos quando abrimos os olhos para um jornal, os ouvidos para qualquer conversa de rua, comboio, autocarro, etc., ou ambos (olhos e ouvidos) para qualquer jornal da televisão: um País que não tem identidade, não sabe para onde quer ir, o que quer SER. Ouvimos e vemos críticas que ajudam a dividir, mas não ouvimos, nem vemos, sugestões unificadoras.

3. A Minha Pergunta

Enquanto líder de uma tão importante organização como a que dirige, que medidas entende deverem ser colocadas em prática pelos seus representados, ‘Por Portugal’, para que o País em que os meus filhos e os deles venham a crescer seja fonte de prosperidade e orgulho, e visto como um bom exemplo pelo mundo: Luta ou cooperação? Expectativa ou envolvimento? Greve ou soluções? Marchas CONTRA ou formação de um espírito de cooperação e desenvolvimento? Solidariedade para com quem sonhou e empreende, ou desprezo pelo resultado económico das empresas?

4. Nota final

Creiam que, ao contrário do que a muitos possa parecer, nada me move em antagonismo ao Senhor Carvalho da Silva. Antes, o facto de reconhecer nele a honestidade de pensamento, o enorme conhecimento, muito mais alto e com bases bem mais profundas do que as minhas, desta matéria, e a sua capacidade de análise, em conjunto com o facto de estar no Porto a convite deste louvável movimento a que se chama Clube dos Pensadores, é que se tornaram responsáveis pela minha decisão de escrever o texto que, se se tratasse de alguém a quem não reconhecesse vontade de fazer, não teria ganho corpo.

Agradeço a resposta, qualquer que ela seja, não apenas por mim, mas ‘Por Portugal’.

Obrigado.

Luís Cochofel
(in CLUBE dos PENSADORES, em 07 / 04 / 2008)

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