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Ontem, sábado, 24 de Janeiro de 2015, finalmente ‘livre'(1) para usar o meu tempo onde a minha vontade me indicava, fui a Vizela, assistir a um evento em que se apresentava a obra de uma poetisa que tive a boa sorte de ter conhecido há cerca de um ano e meio (2) — Ana Homem de Albergaria –, e que incluía, segundo a Agenda que estava publicada, alguns momentos dedicados à música e à pintura e um desafio para ajudar a melhorar um bocadinho a vida de quem está preso.

Fui porque gosto da Ana – HOMEM – de Albergaria, da sua poesia e da forma como a lê. Fui porque gosto de música. Fui porque gosto de pintura (tenho até um outro blogue em que se mistura tudo isto, curiosamente…). Fui porque gosto de mim e já tenho perdido tantos eventos em que queria ter estado… Fui porque gosto de Vizela. Fui porque gosto de conduzir por estradas sinuosas. Fui porque gosto de viver!

O que não sabia é que ia gostar tanto do conteúdo global, como um todo, que nos foi proporcionado.

A anfitriã, Conceição Lima, tem uma energia e uma clareza de expressão fora do vulgar e contagiou todos com a sua atitude, a um tempo, apaixonada pelo que faz e pragmática na condução do evento.

Falou da poesia da Ana com calor: chamou-lhe poesia da noite e do amor… (ainda vou voltar a este tema, que foi, até, o que suscitou a minha vontade de escrever este artigo).

Apresentou de forma carinhosa o Grupo Coral de Professores do Porto e com orgulho nos olhos o Ricardo Vieira e o seu antigo-aluno-mais-malandro Manuel Marques.

Deixou transparecer o prazer que lhe deu participar no desafio proposto pelo projecto UM LIVRO NA PRISÃO: UMA JANELA PARA VOAR, e com razão, porque, para além da valia da ideia, o número de livros ontem recolhido não deixaria ninguém indiferente.

Encheu-se de cor ao apresentar a pintura a quatro mãos realizada por ADIASMACHADO e ARNALDO MACEDO, em que estes homenageiam a poetisa, a Ana, e as suas palavras. (Deliciosos os momentos em que os três artistas se abraçaram e sorriram sorrisos genuínos de pura alegria pela sadia amizade que respiram).

Ana Albergaria e as palavras

O Ricardo Vieira ofereceu-nos duas composições que tiveram o condão de, porque usam palavras, gerar não-só a interacção da audiência mas também as reflexões que a seguir faço sobre a poesia, a poesia da Ana, a arte em geral e o amor. Trouxe-nos, primeiro, o ‘Nasce Selvagem‘ dos Delfins e, mais tarde, o ‘Sei de uma Camponesa‘ do Rui Veloso e Carlos Tê.

O Manuel Machado desculpará que me lembre principalmente do momento em que pediu ao coro – então sentado na sala, a assistir – que cantasse em ‘Inglês’… o estribilho (‘lá-lálálá…’) do ‘Ei-los que Partem‘ do Manuel Freire. Para além deste, ofereceu-nos outros motivos de riso com as suas estórias-da-sala-de-aula-com-a-Professora-Conceição e algumas anedotas (que prometo não reproduzir por escrito! mas também serviram para a reflexão que abaixo deixo), e ainda um belíssimo momento de Cultura Portuguesa com a interpretação que fez de ‘Canto o Fado‘.

O Grupo Coral de Professores do Porto é de uma juventude (juventude com alguns anos, experiente) e demonstra uma versatilidade que seguramente agrada a qualquer público. O gesto final, de apoio ao projecto que tem como foco a melhoria da vida nas prisões foi comovedor.

Passo então às minhas reflexões:

Na asserção que fez sobre o amor na poesia da Ana Albergaria, referiu-se a Professora Conceição Lima a “dois tipos de amor que se confundem: o amor do corpo e o amor da alma“.

Diz a poesia do tema dos Delfins, ‘Nasce Selvagem’, que “quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém…

O corpo… o corpo nasce selvagem. Os mecanismos do corpo, nascem selvagens. A razão, centrada no cérebro, é um mecanismo do corpo. A razão é aquela que diz ao corpo o que ele deve fazer… para descansar, para evitar a dor física, para ter prazer… indicando-lhe a cada momento o que é o seu desejo imediato.

Aquilo a que se chama amor físico – e não vou negar, pelo menos por agora (até por não ter dado atenção a essa questão em concreto), que haja a interferência da alma (consciência) e da emoção num dado momento de interacção entre dois corpos de duas pessoas que dizem amar-se reciprocamente -, aquilo a que se chama amor físico, repito, depende apenas do desejo ‘selvagem’ que a razão sugere que o corpo experimente. O objecto das anedotas do Manuel Machado (que eu não repito por escrito) é da satisfação deste tipo de desejo que fala.

Do que eu conheço da poesia da Ana, do seu trabalho (sim, também já vi a Cláudia), das suas atitudes de permanente oferta aos outros, o que leio é a corporização em palavras do amor que tem na alma. É um amor que não se detém nos corpos, que não conhece os corpos, como, aliás, acontece com todos os poetas dignos do nome.

Defendo o conceito que diz que cada um de nós é uma partícula de Deus aprisionada num corpo.

O que vejo na poesia – como na arte em geral, seja a pintura, a escultura, a música, o desenho ou a arquitectura – é a corporização em palavras, cores, sons ou formas, da expressão daquela partícula de Deus que, após luta interna feroz, concerteza, conseguiu encontrar um modo de superar a razão, ou a conseguiu convencer – porventura com a ajuda da emoção -, do prazer que o corpo iria sentir se de alguma forma pudesse tornar tangíveis  e partilháveis aqueles pensamentos.

Defendo, mais ainda depois da curiosa sincronização de momentos não estudados que ontem se entrecruzaram, que só há um tipo de amor: o amor incondicional, o da alma, que não conhece nem se ocupa com corpos, mas, antes, com almas – ainda que saiba (e o use) que para que a alma possa libertar-se, ter voz, precisa de ter o corpo que a aprisiona, alimentado e sem dor, educado na busca da emoção positiva mais pura.

O corpo, selvagem, deseja; a alma, pura, ama.

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Notas:

(1) – ‘Livre’ porque detentor, finalmente, da disponibilidade de um carro, dinheiro para gasolina e portagens, pelo menos…

(2) – A Ana foi das poucas PESSOAS que se voluntariou e disponibilizou para organizar um evento para a dinamização do Cinema Batalha, quando o tivemos aberto — a candidatura do Nuno Cardoso — no decurso do período da campanha eleitoral para as Autárquicas em 2012; devo lembrar que não havia ‘colagem’ da candidatura a qualquer evento, nem remuneração dos participantes; que o que estava em jogo era a vontade de reabrir um espaço da Cultura para a Cultura e que o que se pedia aos cidadãos do Porto que se interessam pelos ícones culturais da cidade era que experimentassem os seus sonhos ali, e voltassem a trazer à vida activa tão belo exemplar.
A Ana experimentou, e nós — quem assistiu — ganhamos mais uma memória deliciosa, daquelas que nos fazem ter vontade de continuar à procura de soluções para reabrir aquele espaço.
Pela minha parte, fiquei com uma dívida eterna — de gratidão — para com a Ana (e acho que posso dizer que todo o Porto ficou também!… mesmo que não tenha reparado ou o não saiba).

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