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(se gosta de acompanhar a leitura com música de fundo, sem palavras, sugiro-lhe que aproveite uma das seguintes duas propostas:

KITARO – Matsuri

YANNI – Reflections of Passion

Movido por interesses pessoais que a seguir explicarei, dirigi-me na passada 3ª feira, dia 13 de Março de 2012, ao Instituto S. Manuel, CIAD, da Santa Casa da Misericórdia  do Porto, que é um Centro Integrado de Apoio à Deficiência.

Tinha telefonado ao Director da Instituição, Dr. Filipe Macedo, dizendo-lhe que tinha um projecto/produto, dirigido aos cegos, que queria mostrar-lhe, para, antes de mais, ouvir a sua opinião, obrigatoriamente alicerçada na experiência que quem o conhece lhe reconhece.

Disse-me ‘sim, disponho de pouco tempo mas aproveite para assistir a uma Conferência que vamos ter logo à tarde, aqui, e em que estarão presentes entre outros o Dr. Laborinho Lúcio e que tem a ver com os direitos das crianças e dos cegos…

Colocou-me, assim, perante uma porta aberta – uma oportunidade – e uma difícil escolha… sem o saber.

Não é que eu tinha acabado de ser convidado para uma sessão da SHARE – comunidade de partilha de saberes, constituída por ex-executivos e empresários que estão dispostos a oferecer o seu tempo para apoiar projectos de empreendedorismo – na qual teríamos a apresentação do ‘que se passa’ na UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto?!?

Na verdade, eu tinha acabado de submeter o meu pedido para ser aceite naquela Associação – SHARE: www.share.pt – e tinha sido ACEITE como membro, o que, como quem me conhece imaginará, me encheu de orgulho e vontade de estar lá sempre.

E agora…?

Bem…’ disse-lhe ‘… não me vai ser fácil, mas, se me receber no final da Conferência, eu dirigir-me-ei aí por volta das 6…

Venha… venha… olhe que eu amanhã vou ter uma pequena operação e só voltarei aqui na próxima 2ª feira…’

‘Farei os possíveis… Obrigado!… Até logo então’, terá sido a minha resposta.

A reunião da SHARE, tal como a Conferência, começava às 14:30 horas.

Foi-nos apresentada a UPTEC (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto), os seus projectos, as suas valências, a sua oferta.

Posso resumir numa única palavra os pensamentos que a apresentação me suscitou: FANTÁSTICO!

Apesar de o meu interesse na conversa que se seguiria àquela apresentação ser ALTÍSSIMO, eu sentia que tinha que ir para a Escola de Cegos do Porto… Era mais forte que eu… pedi desculpa pelo abandono de tão interessante sessão que me estava a ser oferecida e saí.

Chegado à Escola (Instituto S. Manuel) encontro uma sala plena de gente interessada (gente que sorri ou faz um ar de desacordo em função de cada frase…, não sei se já estiveram alguma vez num sítio assim…?, mas quero acreditar que sim!).

Rapidamente percebi que era ali que eu DEVIA estar.

Ouvi intervenções DELICIOSAS sobre as questões em discussão, mas tenho que salientar dois enormes momentos (enormes de BONS e não por serem demorados ou enfadonhos!):

1. Numa das suas intervenções/respostas o Dr. Laborinho Lúcio presenteou-nos com a sua leitura do que é a DIVERSIDADE, por oposição à noção de diferença;

Fê-lo de forma que parecia estruturada para uma conferência das Nações Unidas, mas num tom informal, de conversa de café, que penso ser a melhor forma de passar informação, porque esta forma, quase calorosa de expor, traz o ouvinte para a conversa, envolve-o, fá-lo pensar, concordar ou não, e aceitar.

A noção, que aceito e ‘embebi’, tal como a retive (que me perdoe o Dr. Laborinho Lúcio pela pobreza de expressão que eu venha a usar!) é mais ou menos esta:

‘Devíamos parar de falar de ‘diferença’ entre as Pessoas; todos pertencemos à mesma espécie; não somos, isso sim, é iguais; cada um de nós é irrepetível; por isso, diverso.

Habituemo-nos, então, a falar de diversidade’

Os exemplos com que caricaturou, ou coloriu, a sua leitura do que encontramos foram muito, mas muito claros e suficientes para me ter feito retirar a palavra ‘diferente’ do discurso quanto a Pessoas.

Deixou-nos mais ideias, mais motivos para pensar e rever conceitos e, de entre essas, saliento ainda outra, referida à noção de liberdades individuais:

A liberdade de um indivíduo não acaba quando começa a liberdade do outro, mas, antes, o que acontece é que a nossa liberdade não se acaba se se contar com o outro; assim, a liberdade, não só não se limita como ainda se expande através do outro.

Teceu comentários curiosos quanto à noção de inclusão: para haver inclusão quer dizer-se, então, que alguém estava à partida excluído?

Achei BRILHANTE!

2. A outra intervenção que saliento veio de alguém sentado atrás de mim, à esquerda (e abro este parêntesis para lembrar que, se eu me voltasse, como fiz, para trás, ela ficaria à minha direita e, se a olhasse a direito, passaria a estar ao centro…), no público, portanto, que, sendo cega, teve a coragem de falar sobre o que isso significa, não reclamando contra, mas sabendo enquadrar cada posição que queria deixar lembrada.

Começou por nos surpreender com a sua intervenção ao usar a ‘estória’ de António Feliciano de Castilho e a sua relação com a cegueira – que o atingiu – tal como a esta cega que agora falava (de seu nome Fátima Moniz, vim eu a saber) – ainda cedo, nos primeiros anos da sua vida.

Falou-nos depois de situações que viveu e que, para além do riso suscitado pelo humor inteligente que usou, ilustravam perfeitamente o que nos queria lembrar (e que também a Fátima Moniz me perdoe se não consigo demonstrar aqui tudo o que pretendia!):

‘Somos todos iguais na diversidade; porque não fazemos, então, com que todos tenham direito a usar livremente essa sua diversidade? Porquê tratar com preconceito seja quem for, à partida?’

Deixou, ainda, a caricatura do que se passa com eles, cegos, visto a partir deles e não já por aqueles que acham que por terem o dom de ver com os olhos lhes chamam invisuais (ou até invisíveis…) e esquecem que a visão é algo que também se forma nos sonhos e que, naturalmente, qualquer cego, porque vivo, formula no seu pensamento, LIVRE, as imagens do que sente e do mundo em que vive.

Senti, naquele discurso, uma paixão pela causa que me deixou marcas. Essas marcas viriam a fazer mudar a minha teoria sobre a composição da ‘vida’ enquanto conjunto de entidades:

Para tentar ser breve – e sei que escrevo sempre textos longos de mais para os nossos dias (ainda que, de seguida, me pergunte como é que, se este é um texto longo demais, ainda se vendem livros…?!?) – explano-a:

Estava baseada no conceito de trilogia, tão difundido que eu o interiorizara, percebo-o agora, como um quase dogma:

PAI, FILHO e ESPÍRITO SANTO, de acordo com a religião que me foi ensinada;

CONSCIÊNCIA, RAZÃO e CORPO, na minha ‘teoria’ de até aqui…

Porquê?:

Via na CONSCIÊNCIA a figura de Deus, o PAI; na RAZÃO a figura do Espírito Santo; e no CORPO a do Filho.

Estava enganado…

O motivo que me levou até ao Instituto S. Manuel não era o de ir participar numa discussão filosófica (passe a pretensão…) mas, antes, de ir recolher opinião sobre um produto, tangível, desenhado para aumentar a autonomia dos cegos num aspecto muito simples da vida de todos os dias.

A ideia que apresentei enquanto tomava um chá para que fui convidado no final da Conferência, suscitou não apenas uma opinião, mas o entusiasmo do Dr. Filipe Macedo. Ainda bem que há gente assim!

Pediu-me que voltasse na próxima 2ª feira para mostrar a ideia a mais gente.

Ao chegar, neste passado dia 19 de Março, curiosamente dia do Pai – que eu sou e QUERO continuar a ser, se não de novas Pessoas pelo menos de ideias tornadas em realidade -, em vez de encontrar gente de gravata à minha espera, à volta de uma mesa de reunião formal, fui colocado perante um grupo de Pessoas a quem já o Dr. Filipe Macedo tinha falado da ideia e que eram:

Um Responsável pelas instalações produtivas da entidade, que tinha, predominantemente, questões – dúvidas, se quiser ler isto assim – relativas a materiais e durabilidade da impressão em Braille para o efeito pretendido – A RAZÃO;

O Técnico mais entusiasmado que podem imaginar, imediatamente pronto para experimentar soluções e responder a quase todas as dúvidas levantadas – O CORPO;

e

A Fátima Moniz, cujos comentários, acompanhados pela clara vibração que lhes davam certificação (que, como sabemos, agora se usa exigir em todo o mundo dos sistemas, processos e procedimentos), me demonstrou ser nenhum daqueles mas A EMOÇÃO, que claramente me atingiu, a mim que me sentia apenas A CONSCIÊNCIA naquele grupo em particular. (Afinal eu estava a perguntar se era interessante produzir uma ideia, não é?)

Se eu lhes disser que não sentia uma lágrima, com água, desde 22 de Janeiro de 1987 acreditam-se? Não se esforcem. A verdade é que, instintivamente, ocultei a face em que essa lágrima apareceu porque não queria que a Fátima a visse. … Mas percebi que a sentiu.

Este momento teve, assim, o condão de me pôr em causa conceitos de há muitos anos. Já valeu a pena ter lá ESTADO.

Porque tendo a racionalizar, passo a descrever a tetralogia que agora se me apresenta como a responsável pelo equilíbrio da VIDA de um Humano:

A CONSCIÊNCIA, que é Deus, o Pai, enquanto orientador, a partir das suas perguntas (a verdadeira liderança não é aquela que se expressa sob a forma de ordens, mas a que, através das questões que coloca gera respostas mais aceites como adequadas em cada momento ou situação);

A RAZÃO, que é afinal a Igreja (leia-se: as instituições que tentam controlar – podendo ser visto assim um governo, uma polícia, algumas chefias, ou um patrão, por exemplo), que tenta racionalizar o que é instintivo e limitar com os seus dogmas o que foi criado para gerar mais e mais, infinitamente. Em cada um de nós pode ser lido como A EDUCAÇÃO.

O CORPO, que é o Filho vivo de Deus, que, através da sua acção nos mostra com exemplos o que é a vontade daquele seu Pai, e que é usando o corpo – com acção, portanto – que obteremos resultados e não com discussões sobre dogmas opostos ou conceitos para que olhamos à partida com preconceito.

A EMOÇÃO, que seria afinal o Espírito Santo, e que une a equipa e lhe permite ter um relatório de análise completo em muito pouco tempo, se não obnibulado pela RAZÃO.

Percebi, e há muito que o devia ter feito, que é aqui, provavelmente, que reside o problema da sociedade actual:

Fizemos um tal esforço para aniquilar a EMOÇÃO que não conseguimos o equilíbrio de que qualquer SER necessita.

Precisamos, urgentemente mas sem pressas atrapalhadas, de voltar a ouvir a voz da EMOÇÃO, de a valorizar e de VIVER criando o novo futuro de que até a RAZÃO nos fala, o CORPO quer e A CONSCIÊNCIA sabe ser possível.

Luís Cochofel

25 de Março de 2012

(Não sou CONTRA o novo acordo ortográfico – teria que o analisar mais profundamente do que o fiz até hoje para propor alternativas às questões que me surgem desagradáveis – mas agradeço que este texto seja mantido na forma como foi escrito. Obrigado.)

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