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A Tertúlia, realizada ontem no CHÁ & COISAS, no Porto, desencadeada por uma ‘conversa’ no Facebook, provocada esta por um artigo de opinião no DN com o título ‘Porque não reduzir o horário de trabalho?‘, foi um belíssimo momento!

Criei o evento na sequência de uma proposta da Ana Soares, efectuada no decurso da tal conversa no Facebook (que conservo no início do meu ‘mural’), que dizia:

‘Quem se disponibiliza para um encontro temático, fica dificil na net, e que tal estimular o contacto pessoal . Este tema apaixona e da discussão nasce a luz, tenho uma visão mt própria acho e procuro esclarecer-me. Não tenho conhecimento especifico na àrea. Que dizem um chá das cinco? Lanço o mote Luís Cochofel.

Dado que há uns dois anos usei a analogia entre o CHÁ e o indivíduo, só pude ficar ‘a ferver’… No instante seguinte estava a criar o evento e, porque se falava de CHÁ, aproveitei para publicitar aquele meu ‘produto’ (que é gratuito!), usando-o como ‘bandeira’ para o evento: ‘5 minutos para um CHÁ!’.

Fiquei surpreendido com a quantidade e qualidade das pessoas que decidiram participar.

Num evento marcado com dois dias de antecedência, ainda por cima para o fim da tarde de uma 6ª feira, ter reunido onze pessoas de diversas áreas de actividade, algumas delas de fora da cidade e outras com actividade profissional corrente e activa, foi, de todo, uma surpresa muito agradável.

A minha intervenção começou, como não podia deixar de ser, pela explicação de o que é isto do CHÁ!, na minha perspectiva, interessado que estou, desde sempre, no desenvolvimento da auto-consciência para o melhor desempenho.

(Lembro aqui que o conceito está disponível em http://cha-tea.webs.com/)

Para o fazer de forma breve ficam aqui as ideias base:

C = Conhecimento (só sabendo o que as coisas são podemos decidir se nos interessam)

H = Habilidade (só com a prática efectiva é que podemos atingir a perfeição na actividade que escolhemos desenvolver)

A = Atitude (o nosso desenvolvimento – a forma como seremos avaliados pelos outros – dependerá da forma empenhada, envolvida, com que permanentemente aumentamos o nosso conhecimento e treinamos a nossa habilidade)

O CHÁ! é, assim, na minha opinião, fundamental para cada ser humano vivo e deve merecer uma atenção constante no sentido de que se encontrem os caminhos para a melhoria contínua.

Neste ponto, e para além de fazer notar que não é por acaso que o acento no A está lá – a Atitude é a tónica do desenvolvimento de competências! – disse algo como:

Devemos, cada um de nós, criar as condições para fazermos aquilo de que mais gostamos, aumentando o nosso Conhecimento e a nossa Habilidade, com uma Atitude que tenha como objectivo o atingimento da Excelência em tudo o que fazemos.

Voltando ao tema que serviu de ‘rastilho’ para todo este movimento – discussão, rica, no FB + Tertúlia – expliquei as razões que me levam a ser adepto da redução do tempo de trabalho, e que tentarei agora enumerar pela mesma ordem:

1. O crescimento da educação e o desenvolvimento de competências dos países industrializados trouxe consigo o fenómeno, natural, de fazer com que as Pessoas de tais países tenham dificuldade de adaptação a cargos profissionais considerados ‘mais baixos’ numa hierarquia de ‘importância’;

2. A necessidade de produzir a custos mais reduzidos levou os países ocidentais a procurar novas fontes de produção de trabalho intensivo que geram, efectivamente, desemprego qualificado nos seus próprios países;

3. Tais novos desempregados têm – ver nota nº 1 – relutância em aceitar empregar-se em funções menos qualificadas e tendem à inactividade;

4. Só a actividade – o estar em contacto com as coisas, o deparar-se com problemas a gritar pela necessidade de soluções – pode propiciar mudança para melhor (seja qual for o aspecto da vida que se queira focar);

5. O desemprego gera, também, falta de recursos que permitam a manutenção dos níveis de consumo aos que são por ele afectados;

6. Em resultado disto, a própria indústria tende a produzir com custos mais reduzidos, produtos para os quais esteve a ‘queimar’ clientes (um ex-funcionário de uma fábrica de automóveis alemã deixa de ter poder de compra para trocar a sua viatura – normalmente da marca que ele próprio produzia – e os novos funcionários, porque contratados com base no baixo custo da remuneração do seu trabalho, também não estarão capazes de se tornar clientes da marca para a qual trabalham)

Assim, propunha eu em 1993 e reforço hoje – até em virtude da verificação de que o que eu previra estava aquém do que nos está a acontecer:

Redução do tempo de trabalho, na Indústria, para 6 horas por dia.

Porquê:

A. A Indústria tende a trabalhar 24 horas por dia, 365 dias por ano (a economia de escala fala disto);

B. Trabalha, normalmente, em 3 turnos de 8 horas;

C. Se aumentar o número de turnos, o que vai acontecer é a necessidade de empregar mais pessoas (cerca de 25% a mais, nas funções de produção) – e já não a necessidade de aumentar custos;

D. Sabe-se – apesar de não conseguir referenciar de cor onde li isto – que 10 postos de trabalho na Indústria geram, em média, 3 postos de trabalho nos Serviços.

E. Sabe-se – e mais uma vez não posso apontar a referência – que a maioria das produções defeituosas são provocadas involuntariamente nas duas últimas horas de cada turno.

Faço aqui uma pausa para lembrar que um empresário será sempre ’empresário em 24 horas por dia’ e um Técnico, ou um Cientista o será também ’24 horas por dia’.

Não acontece isto às pessoas que vendem o seu tempo para actividades de trabalho em série…

Muitas vezes, encontramos neste grupo pessoas que fazem o que fazem profissionalmente apenas porque precisam de dinheiro para pagar as suas contas, mantendo, no entanto, outros interesses pessoais que têm o desejo de desenvolver, faltando-lhes, habitualmente, o tempo que gostariam de ter para as poder explorar.

O actual estado de coisas não permite outra coisa que não seja a utilização do tempo livre em outras tarefas que não oferecem prazer, como o são por exemplo as que estão ligadas à manutenção da limpeza da própria casa.

Acredito, por tudo isto, que os países ditos desenvolvidos só ganhariam, em qualidade e alegria de viver se introduzissem uma medida como esta.

Usei (não o disse mas conheço vários casos emblemáticos neste aspecto) o contra-argumento da rentabilização financeira do hobby – falando nomeadamente na pintura – como alternativa com maior possibilidade de êxito se estivermos num país em que o poder de compra e de consumo é equilibrado.

Muito mais haveria por dizer relativamente a esta ‘proposta’ mas já este texto vai longo e o que se pretendia era ouvir opiniões e não ir dar a minha opinião.

Mais tarde, na discussão (leia-se: conversa animada com opiniões diversas e achegas bem interessantes) que se gerou, foi-me suscitada a necessidade de referir:

Não se pretende criar um novo dogma, antes, isso sim, acrescentar informação de modo a promover uma maior consciência para a nossa responsabilidade de tomarmos as rédeas do futuro da organização da nossa própria vida (e do trabalho como parte integrante daquela).

Apresentei o meu conceito de empresa vista como uma árvore (desenvolvida de baixo para cima e não de cima para baixo), focando-me nos aspectos a avaliar:

Qualidade do CHÁ! (Conhecimento + Habilidade + Atitude), nas folhas (técnicos) e nos frutos (pessoas da produção de bens ou serviços), de TODOS mas em particular daqueles que não chefiam ou coordenam o trabalho de outros;

Qualidade do CHARME! (Conhecimento + Habilidade + Atitude + Responsabilidade + Metodologia + Estratégia), na copa da árvore (formada por braços – Direcções funcionais – e ramos – Secções, sectores ou equipas), estando aqui a apontar para a qualidade das chefias e coordenações;

CARISMA! (Competência + Administração + Responsabilidade + Inovação + Sociabilidade + Metodologia + Atitude) do troco, aqui visto como a Direcção de topo das empresas.

No final da Tertúlia, e por me ter parecido interessante juntar tal ‘ilustração’ para muito do que tínhamos ouvido e partilhado, passei a apresentação que pode ver (e ouvir, se chegar ao slide 21…) aqui:

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5 thoughts on “TERTÚLIA sobre o futuro da Organização do Trabalho

  1. Obrigado! Tenho que lhe dizer: porque não faz isto mesmo aí, desse outro lado do Atlântico?

    Temos TODOS que começar a conversar uns com os outros e a partilhar o que sentimos dever fazer acontecer porque o futuro de que falo não é apenas o da minha rua ou do meu país…

    É do futuro de todo o mundo que estamos a falar!

    Conto consigo, vá lá… FORÇA!

  2. Parece ser apenas uma questão de bom senso… se se fizer mais e melhor em menos tempo, será libertado “tempo” para outras actividades que possibilitarão uma melhor cidadania, logo uma comunidade mais saudável e feliz! Acresce que se fosse, por exemplo, reduzido o horário em duas horas/dia isso iria criar necessariamente novos postos de trabalho e novas profissões, quer directamente nas empresas em questão quer indirectamente por articulação com o fluxo de novas oportunidades! Seria melhorada a qualidade de vida e daqui resultaria, quase de certeza, um aumento de natalidade e maior apoio aos idosos e aos menores deste pais! Na Grécia Antiga quem diria ser possível “viver sem o sistema esclavagista”? É possível e necessário para o respeito da dignidade da condição humana… com a redução de horas de trabalho estamos, também, perante uma mudança de paradigma…”há que pensar fora da caixa” – o mesmo é dizer, importa arriscar ser inovador e apostar na diferença com inteligência e com uma dinâmica de coragem!

  3. Porque não reduzir o horário de trabalho?

    Em primeiro lugar, Luís, parabéns pela luta em discutir de forma sã os problemas que nos afectam. A si e a todos aqueles que lhe dão a devida continuidade.

    Continua de pé a dúvida que, no post do FB, levantei: sendo Portugal um país deficitário entre aquilo que, hoje, produz e aquilo de que, hoje, necessita para distribuir, como é possível eliminar este diferencial reduzindo as horas de trabalho?

    Do que li, não tenho nenhuma resposta que elimine a minha dúvida. Vejamos porquê!

    Se a indústria trabalha 24 por dia, o seu output de produção estará, completamente, de acordo com a sua dimensão o que significará, provavelmente, que os seus custos e os seus proveitos terão o equilíbrio que a sua gestão definiu como conveniente, para além de o seu output produtivo estar concordante com a capacidade dos restantes factores de produção (equipamentos, instalações, etc.) e com a sua quota de mercado. Assim, a redução dos turnos de trabalho de 8 para 6 horas, acrescentaria aos custos do factor trabalho 25% sem que existisse acréscimo de produção, já que esta estaria limitada pelos restantes factores produtivos e, por isso, o efeito sobre as vendas não existiria. Então, aconteceria uma das seguintes situações:

    1 – O aumento de custos não era repercutido nos preços de venda e o equilíbrio existente desaparecia, motivando prejuízos, com consequências graves no desenvolvimento futuro das empresas e, logo, para o trabalho ofertado;
    2 – O aumento de custos era repercutido nos preços de venda e mantinha-se o equilíbrio, mas perdia-se quota de mercado se os concorrentes nacionais ou estrangeiros não adoptassem a mesma medida, bem como diminuía o poder de compra de cada empregado, já que o salário unitário se mantinha o mesmo;
    3 – A diminuição de horas (25%) implicava um decréscimo de salário unitário na mesma medida, resultando daí mais pessoas empregadas, mas todas com um salário inferior, obrigando a uma generalizada redução do patamar de consumo, com óbvio impacto no mercado.

    Mesmo admitindo melhor qualidade no trabalho prestado – fruto do aumento da “felicidade em trabalhar” – não creio que, ao fim de algum tempo, as últimas 2 horas não fossem, novamente, as mais propícias aos erros involuntários, bem como, de que essa melhoria tivesse um impacto, suficientemente positivo, capaz de compensar a medida da redução do horário de trabalho.

    Propositadamente, não introduzi outro tipo de problemas que se criariam caso a medida fosse aplicada, nomeadamente, noutros sectores de actividade. Não esqueci, também, o exemplo da França quando diminuiu as horas de trabalho para resolver o problema do desemprego. Este reduziu-se, mas o problema do crescimento económico não e o desemprego voltou.

    Em resumo, creio que a medida – no Portugal actual – é desfavorável porque encarece os custos de produção e diminui a competitividade.

    Um abraço
    José Rocha

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